Por que deveríamos gostar de aprender?

Não é segredo para ninguém que tenho gostado de filosofia a cada dia mais e que me arrependo profundamente de não haver dado atenção à essa matéria na escola – se bem que, pelo o que me lembro, as aulas de filosofia eram tudo exceto aulas para ensinar a pensar, quem dirá para mostrar amor pela sabedoria.

Mas não vim acusar ninguém e nem simplesmente dizer que poderia ter sido melhor. Quero, por outro lado, analisar um pouco o que o querido Sêneca deixou para que a gente pensasse. O trecho a seguir pode ser encontrado no livro Cartas de um estoico, Volume I:

Capa do livro Cartas de um Estoico, de Sêneca

O estudo não pode ser útil a menos que você se esforce para viver simplesmente e viver simplesmente é pobreza voluntária. Então, fora com todas as desculpas como: “Eu ainda não tenho o suficiente, quando eu ganhar a quantidade desejada, então vou me dedicar inteiramente à filosofia.” E, no entanto, este ideal, que você está adiando e colocando em segundo lugar, deve ser assegurado em primeiro lugar. Você deve começar com ele.

Em todos os lugares do mundo que eu já ouvi falar, as pessoas começam a frequentar a escola logo nos primeiros anos de vida. É na escola onde elas começam a aprender a socializar com estranhos, a inventar brincadeiras com criatividade, a colorir os primeiros desenhos, a escrever as primeiras letras. E assim permanecem por vários anos.

Obviamente que, a cada ano, as crianças evoluem – pelo menos é o usual e esperado. A socialização evolui, as brincadeiras mudam, desenhos não são mais coloridos com tanta frequência, e já não se escreve mais apenas algumas letras, mas textos inteiros, cada vez mais complexos, e que fazem os professores de Português se tornarem carrascos. É um pouco de exagero, mas também um pouco de verdade.

Até que o aluno complete o ensino médio, se foram mais de 15 anos frequentando a escola todos os dias. Faça chuva, faça sol, de segunda à sexta os alunos estão lá para aprender.

Continuando a ideia, se o aluno decide cursar Análise e Desenvolvimento de Sistemas, geralmente são mais 4 anos que ele precisa dedicar aos estudos. São 4 anos em que ele precisará se dedicar a aprender um tópico novo, reforçar tópicos já conhecidos.

Considerando todos os anos, podemos dizer que o aluno estudou, aproximadamente, 20 anos. 20 anos. É muito tempo. Nesse tempo, de acordo com os últimos dados que temos sobre registro de crianças, cerca de 52 milhões de crianças vieram ao mundo, enquanto 34 milhões de pessoas morreram. Só por essa perspectiva, é possível ver o tanto de coisa que aconteceu durante todo esse tempo.

Portanto, é possível concordar que 20 anos são, de fato, muitos anos. Mas, e se, ao longo desses 20 anos, nós não tivéssemos aprendido a aprender e, muito menos, a gostar de aprender? E se nós só fizemos as coisas para “passar de ano“? O que eu via acontecer com frequência era um aluno perguntar, inclusive eu mesmo, para o que eu usaria determinada matéria – quem nunca perguntou “professor, onde eu vou usar Bhaskara?” que atire a primeira pedra.

Porém essa pergunta é um pouco traiçoeira pois, invariavelmente, nos leva a pensar que somente aquilo que tem utilidade para nós, na nossa visão de mundo, é o que deveria ser ensinado. E se assim fosse, seria ainda pior porque nos fecharíamos cada vez mais em uma bolha onde somente o que acreditamos ser bom é realmente bom.

Por conseguinte, acabamos por eliminar a possibilidade de descobrir novas paixões e de despertar novos interesses através de objetos de estudo que, à princípio, não nos são interessante.

Eu sei que parece ser apenas um ideal, uma ficção. Descobrir novas paixões estudando seno e cosseno? Novos interesses ao aprender sobre sintaxe, proparoxítona e preposição? Sim, é exatamente isso!

Existe um vídeo no YouTube do canal Universo Narrado onde ele discute um pouco sobre o que aprendemos na escola e qual a utilidade de tudo isso. Esse vídeo mudou minha forma de pensar sobre vários assuntos, inclusive sobre aprendizado.

O nosso problema é que queremos ver o estudo apenas como algo que, instantaneamente, pode ter algum retorno, na maioria das vezes financeiro. Mas que vida medíocre se só pensamos assim. Obviamente o retorno financeiro é importante, mas fazer algo pensando somente no retorno monetário daquilo é medíocre.

Cada matéria que tínhamos na escola era responsável por nos mostrar um aspecto importante da vida. Apesar de muitos de nós não apreciarmos o aprendizado na escola, as aulas de física servem para mostrar a beleza do universo em que vivemos. Se você teve a oportunidade de ver as primeiras fotos do Telescópio Espacial James Webb, você vai lembrar daquele seu professor falando sobre lentes, reflexos, velocidade, aceleração, comprimento de onda, e por aí em diante.

As aulas de matemática nos mostravam a importância de um raciocínio lógico para resolver problemas. As aulas de português nos ensinavam como alinhar nossas ideias numa folha de papel de forma que um leitor pudesse entender.

E por aí vai. Todas as matérias que tínhamos na escola servem para, de certa forma, ajustarmos as lentes com que vemos o mundo.

E é uma pena que muitos de nós tenhamos passado 20 anos dentro das salas de aula sem nunca ninguém ter nos ensinado a gostar de aprender. Foram 20 anos onde só queríamos ir embora o mais rápido possível e nos livrar daquilo tudo.

No entanto, se você está lendo esse texto, ainda tem esperança para você. Significa que você ainda está vivo e pode mudar sua própria mentalidade.

Se existe um tema pelo qual você se interessa mas que nunca estudou, ou que te disseram que não era útil para sua carreira, invista um pouco do seu tempo nele. Sabe aquele idioma que você queria fazer mas decidiu postergar por ter outras coisas importantes para fazer? Aquele livro que você queria ler mas não viu utilidade nele – ou te disseram que era inútil? Gaste uma parte do seu tempo com eles.

Mesmo que não lhe seja aparentemente útil, ouse aprender apenas pelo simples prazer de aprender. Se não der um retorno financeiro amanhã, deixe que assim seja. Aprenda pelo prazer de aprender, expanda os seus horizontes, sua mente, seus pensamentos. Não se restrinja à uma caixa de pensamento na qual você deve permanecer.

Se você esperar ter as melhores condições para decidir aprender alguma habilidade, sinto muito em te informar mas essas condições melhores nunca chegarão. Esperar ganhar mais para então fazer algo que gosta pode ser uma falácia que você conta para si mesmo.

É esse o pensamento do nosso querido Sêneca. Se você espera condições melhores para se dedicar aos estudos, então você nunca estudará, invertendo completamente qual deve ser a sua real prioridade na vida.

Gaste tempo aprendendo, e ame aprender.

4 Comments

  1. Parabéns, ótimo texto. Obrigado por compartilhar, as vezes a gente se dá muitas desculpas para não começar aquilo que queremos.

  2. Parabéns Matheus um excelente texto, tenho uma Frase comigo que um colega de trabalho falou há muitos anos ” você pode perder tudo, menos o seu conhecimento” e isso fez muita diferença pra mim até os dias de hoje!

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